‘’Quanto mais quer alcançar as alturas e a claridade, tanto mais suas raízes se inclinam para a terra, para baixo, penetram na escuridão, na profundeza – no mal.’’
Assim Falou Zaratustra – F. Nietzsche
Introdução
Essa passagem citada pelo personagem principal – Zaratustra – pode ser interpretado como uma investida em nosso próprio âmago, onde muitas vezes negamos nosso lado mais ”obscuro” ou ”errado”, tentando limpar nossa imagem para alcançar o topo.
Porém, assim como Zaratustra fala, se quisermos atingir tal ponto, precisamos investigar e confrontar nossos instintos mais profundos, mesmo que sejam negativos, para assim florescer às alturas. Caso contrário, somos corroídos pela amargura, por problemas não resolvidos no passado, por comportamentos que nunca procuramos controlar.
A ilusão da afeição
Somos falhos em relação à pré-julgamentos, estamos constantemente definindo, julgando e/ou adivinhando sobre alguém. Por onde passamos, absorvemos em nosso pensamento ideias a respeito de pessoas que passam por nós, e com isso, temos uma pequena grande falha nesses julgamentos.
Por natureza, julgamos o belo como correto. Erroneamente continuamos a praticar esse comportamento definindo que uma pessoa bela, por exemplo, é tão bela quanto seu caráter. Logo, tomamos isso como um comportamento pessoal também; uma falsa sensação de imagem imaculada.
Mas o fato é que todos possuem seus demônios, seus medos, seus erros e seus acertos, obviamente. Queremos proteger nossa imagem dos erros, das falhas e dos julgamentos por medo que não tenhamos um caminho mais aberto para as oportunidades; mas esse é um erro grave.
A sucessão falha de negações próprias
Vira um vício. Negar o que somos, construir falsa moral ou ética para uma platéia, relatar somente seus acertos – é um caminho que constrói seu castelo de cartas. Pode até funcionar projetar a imagem de um super-homem ou super-mulher, onde a sua jornada de herói é perfeita e digna de todos os elogios dos homens de bem, porém, a ruína é o seu destino.
A chance de você ser perseguido e aniquilado pelo seu próprio Eu no futuro é altíssima. A própria imagem que você construiu te engole, arrancando sua felicidade e seu prazer em viver a vida. Não atoa, julgamos artistas como uma suposta vida perfeita se afogando em depressão, polêmicas, relacionamentos mal resolvidos, e doenças relacionadas à saúde mental.
É um caso de sucesso muito bem assertivo; boa imagem – sustentação = infelicidade.
Se tornando uma sucessão de decisões voltadas à grandiosidade e imaculada da imagem própria, você se afunda em correntes impostas pela sociedade e por pessoas do seu próprio convívio, não havendo escapatória para você ser… você.
O sucesso pode ter seus espinhos, mas o fruto nascerá entre eles
Lendo novamente a citação do início desta publicação, Nietzsche quer nos dizer que para alcançarmos às alturas sociais, independente do seu objetivo, nossas raízes mais profundas nos acompanharão, e por ventura, aumentarão. Cabe a nós sabermos lidar com elas.
Enfrentaremos solidão, incompreensão dos próprios pensamentos e atitudes, e julgamentos principalmente, mas devemos tomar isso como necessário para um destino mais iluminado e sólido. Se você preencher seu caminho somente com certezas, pregando uma falsa moral ríspida, ou até mesmo tentar obter a luz sem receber a sombra dela, estará fadado ao declínio psicológico.
Seja inteiro, leve seus fardos consigo pelo caminho, carregue-os e trabalhe com eles. Nietzsche não quer que você seja bom, quer que você seja humano, o máximo possível. Filtre as más atitudes e compreenda suas falhas, mas não as esconda de si próprio.